Em maré de Astrologia
Recentemente no Canal de Notícias de Lisboa, a conhecida astróloga Maya apresentou o efeito das marés como um facto que suporta científicamente a astrologia. O racíocinio é que a Lua provoca marés nos oceanos, e como os seres humanos são constituidos em grande parte por àgua, confirmava-se assim cientificamente o efeito da Lua sobre as pessoas.

Infelizmente, o raciocínio está completamente errado. Como se pode constatar pela ausência de marés em qualquer prato de sopa, banheira ou piscina, o efeito é mais complicado do que o que a astrologia aparentemente considera.

O que são as Marés?

É verdade que as marés são em parte causadas pela atracção gravitacional da Lua (e também do Sol). Mas é errado pensar que a Lua está a puxar a àgua para cima, ergendo-a vários metros em relação à costa. A força da gravidade da Lua afecta não só a àgua dos oceanos, mas também a rocha dos continentes e todo o globo terrestre, e não é capaz de distinguir a àgua de outros materiais. Além disso é tão fraca aqui na Terra que o seu efeito em qualquer objecto é centenas de milhar de vezes menor que o peso do objecto.

O factor mais significativo é que a Lua não está exactamente a orbitar a Terra. Isto é uma boa aproximação, mas a realidade é que ambos estão a deslocar-se à volta de um ponto entre a Terra e a Lua. Este ponto (o centro de massa) encontra-se no interior da Terra, a cerca de 4.700Km do seu centro.

O movimento circular em torno a este ponto exerce uma força centrifuga em tudo à superfície da Terra (como quando fazemos girar uma corda com uma pedra atada na ponta). Mas como este ponto não coincide com o centro da Terra, na maioria dos sítios a força centrífuga não terá uma direcção perfeitamente vertical.

Isto é a parte mais importante para compreender as mares: não é uma força possante que puxa a àgua dos Oceanos para cima, mas uma força minúscula que arrasta ligeiramente a àgua para os lados. Este efeito é tão pequeno que numa pessoa de 60Kg a força é cerca de meio grama (clique aqui para ver os cálculos), o peso de um pequeno pedaço de papel. Mas um Oceano tem tanta àgua que mesmo uma pequena perturbação se torna significativa.

Nas regiões costeiras, a profundidade dos oceanos é muito reduzida, e a àgua deslocada pela acção da Lua e do Sol pode se erguer vários metros dependendo da forma do litoral e do leito do oceano junto à costa. Mas em mares mais pequenos e isolados, como por exemplo o Mediterrâneo, a deslocação de àgua é insuficiente para causar marés significativas.

Um lago, uma piscina ou uma pessoa contém volumes de àgua pequenos demais para que o efeito de marés seja sequer perceptivel.

Qual o efeito da Lua nas pessoas?

Obviamente, se uma pessoa acreditar que a Lua a influencia, haverá um efeito. Mas isto é no fundo a pessoa a influenciar-se a si própria (normalmente com a ajuda de terceiros) sem que a Lua tenha qualquer culpa.

É verdade que a gravidade da Lua exerce uma força no nosso corpo, alterando o nosso peso conforme nos puxa contra ou a favor da gravidade da Terra. Mas este efeita variação é tão pequena que até cortar as unhas pode fazer um efeito maior. Além disso, nem a Lua nem a força da gravidade que esta exerce, tem maneira de saber a data e o local de nascimento de cada um de nós. Qualquer efeito que a gravidade da Lua pudesse ter seria forçosamente independente do signo, do ascendente e de outros que tais.

A ciência exige acima de tudo a honestidade de aceitar os factos tal como eles são, e por isso não é adequada para justificar mitos e fantasias.

Agradecimentos

Agradecemos o apoio dos membros da lista de discussão Astroalert na Whitewater University.

Ludwig Krippahl

 

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