Medicina Alternativa

A Origem da Medicina Moderna

Durante muitos séculos as doenças foram encaradas como algo sobrenatural. A Bíblia refere a lepra como castigo divino, os epilépticos eram considerados possuidos por demónios e mesmo hoje em dia muitas culturas consideram que a feitiçaria ou espiritos maléficos são a principal causa das doenças.

Salvo algumas excepções, os tratamentos não eram desenvolvidos com base em conhecimentos práticos adquiridos por observação. Em vez disso eram derivados das crenças de cada cultura e de explicações mágicas. Uma cura podia ser uma reza ao espírito responsável, um encantamento para proteger o doente da feitiçaria ou uma poção feita duma parte sugestiva de um animal -- e tudo isto para a mesma doença.

Mesmo na idade média o sistema era semelhante. Não se recorria tanto a espíritos para explicar a doença, mas sangrava-se a torto e a direito, com cortes ou sanguessugas, para retirar os "humores" prejudiciais. Tudo isto porque séculos antes Hipócrates lembrou-se de escrever que todas as doenças são causadas por desiquilibrios entre os quatro fluídos que acreditava formar o corpo humano (sangue, fleuma, bilis amarela e bilis negra).

O factor comum era a forma de pensar: alguém antigamente tinha inventado uma explicação e agora todos seguimos o mestre e nunca vamos ver se a explicação está certa ou não.

Só por volta do século 17 é que se começou a generalizar a idéia de testar hipóteses com experiências e observações. Ou seja, inventar uma explicação era apenas o primeiro passo; a seguir era preciso ver se era de facto correcta. Esta inovação metodológica marca o início da ciência moderna.

Inicialmente apenas a física beneficiou deste novo método, mas em breve outras àreas da ciência poderam também aplicá-lo. Na medicina Edward Jenner criou a primeira vacina em 1796, demonstrando a sua eficácia contra a varíola. No século XIX Robert Koch, Louis Pasteur e Joseph Lister lançaram as bases da microbiologia e retiraram bastante do sobrenatural na medicina.

Com os avanços na genética, no design de fármacos e em tecnologia de diagnóstico e terapias (e.g. Raios X, Radioterapia, Ressonância Magnética) a medicina moderna assenta agora numa sólida base experimental. Daí o seu enorme sucesso, quando comparada aos métodos antigos.

As Alternativas

Os termos "medicina complementar" ou "medicina alternativa" são muito usados pelos defensores destas práticas para as distinguir do que chamam "medicina convencional". A distinção é importante, mas chamar a todas "medicina" é enganador.

A diferença é que as alternativas não respeitam as exigências da medicina moderna, considerando desnecessário comprovar a eficácia de cada tratamento em testes devidamente controlados. Na verdade, a "medicina" alternativa está aínda na idade média (ou antes), e os seus "tratamentos" são propostos não com base no que de facto funciona mas apenas em teorias nunca testadas.

Como exemplo, consideremos a Homeopatia. Os príncipios básicos que a regem são:

1. A Lei dos Semelhantes, que diz que qualquer mal é curado por algo semelhante. Com base nisto os medicamentos têm o propósito de agravar os sintomas de qualquer doença.

2. O Princípio da Dose Mínima, segundo o qual uma diluição extrema amplia os efeitos benéficos dum medicamento e reduz os efeitos secundários. Ou seja, quanto menos se tomar melhor é.

3. Prescrição Holística, em que qualquer medicamento para tratar qualquer problema deve considerar a pessoa como um todo.

A partir daqui os homeopatas concebem todos os seus remédios. Munidos de tão maravilhosa teoría, já não precisam de gastar tempo e dinheiro em ensaios clínicos, em testes de eficácia ou coisas do género. Na verdade, nem sequer acham necessário testar a própria teoría; o mestre disse, está dito e assim é.

Não só faltam dados que apoiem a teoría como há informação que a contradiz. A Lei dos Semelhantes não pode ser uma lei geral; niguém vai curar uma perna partida tomando algo que aumente a dor ou partindo a outra perna. As diluições usadas fazem com que a dose que o paciente tome muitas vezes nem contenha um único àtomo ou molécula do princípio activo.

É sempre arriscado fiar-se só na teoria e não confirmar se as coisas funcionam na prática. O caso destas alternativas é aínda pior: em muitas delas até já se sabe que não funcionam.

Se não funcionam, porque são tão populares?

Muitos pensarão que, se tanta gente recorre a medicinas alternativas e se sente melhor, então é porque alguma coisa funciona. Infelizmente, não é bem assim...

Em primeiro lugar qualquer doença grave é quase sempre tratada num hospital. Um acupunctor ou iridologista, ao contrário dum cirurgião, nunca terá um paciente a morrer-lhe nas mãos. E normalmente uma pessoa que recorre a estes serviços continua o seu tratamento médico convencional. Assim o tratamento alternativo pode ficar com os louros no caso da cura, e esquivar-se das responsabilidades se a doença persiste.

Doenças menos sérias normalmente curam-se sozinhas -- mal de nós se o nosso organismo fosse incapaz de nos livrar duma gripe. Se uma gripe passa em três dias, então é garantido que após um tratamento homeopático de três dias vai estar curado. A cura não deve nada ao tratamento, mas o paciente vai pensar que sim. Mais uma victória para as alternativas...

Finalmente, o consumo de serviços médicos também é uma questão de mercado. Um hospital do estado tem que tratar todos os doentes, e por vezes a lista de espera pode ser grande. Um praticante duma qualquer alternativa, livre da responsabilidade de tratar o doente, pode dedicar-se a recebê-lo bem, a agradar e, no fundo, a vender melhor o seu serviço. É inegável que o atendimento num consultório de terapia por florais de Bach será muito mais agradável que num hospital público.

Compreende-se assim a popularidade destas alternativas -- apesar de em geral não terem qualquer utilidade prática, são um produto muito mais apetecível para quem se pode dar ao luxo de gastar mais dinheiro e arriscar a saúde.

E se já há mil anos atrás os imperadores chineses usavam a acupunctura, porque não usa-la hoje? Talvez porque a esperança média de vida deles era de 45 anos e nós sempre gostaríamos de viver mais alguns...

 

Ludwig Krippahl 2002

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